7 de julho de 2011

AINDA A SOLENIDADE DO PENTECOSTES



Mensagem para o dia da Solenidade de Pentecostes 2011
(retirada do site: www.mosteirodesingeverga.com)





A celebração nupcial de Deus com os homens:
O Espírito Santo


A tradição patrística-eclesial interpretou do mesmo modo dois acontecimentos do Novo Testamento: as bodas de Caná e a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes.

Em Caná Cristo transformou a água em vinho. Este vinho era tão abundante e de boa qualidade que surpreendeu o chefe de mesa. Considerado como sinal da embriaguez, numa festa matrimonial tornou-se símbolo da embriaguez nupcial.
No dia de Pentecostes os apóstolos, que tinham recebido o Espírito Santo, foram acusados de embriaguez. Mas Pedro esclarece diante de todos: «estes homens não estão embriagados, como pensais, pois esta é apenas a terceira hora do dia» (Act 2,15). A verdadeira razão pela qual os Onze manifestavam a sua exaltação devia-se ao dom do Espírito que tinham recebido, o novo e verdadeiro vinho da embriaguez humana e espiritual. Este vinho do Espírito testemunha a realidade da celebração nupcial de Deus com os homens. Aquele vinho de Caná não era mais que a prefiguração do vinho do Espírito Santo distribuído para a festa das núpcias de Deus com a humanidade. A presença do Espírito revela o cumprimento da profecia nupcial entre Deus e o seu povo. O dia de Pentecostes é também a celebração de um banquete nupcial.
Por isso, alguns Padres da Igreja (Orígenes e Gregório de Nissa) estabeleceram uma ligação entre o vinho das bodas de Caná e vinho do Espírito através do texto inicial do Cântico dos Cânticos, quando a esposa, referindo-se ao esposo, diz: «beija-me com beijos de tua boca! Teus amores são melhores do que o vinho» (Ct 1,2). Pelo mesmo motivo entrelaçaram o tempo do Pentecostes, com os seus cinquenta dias, com a eternidade, o tempo de repouso e de alegria que caracterizará a plena e gloriosa celebração nupcial entre Deus e os homens. Descobriram, portanto, uma relação muito estreita entre vinho, Espírito Santo, convite nupcial, Pentecostes, o banquete nupcial das núpcias eternas. O Espírito aparece como aquele que concretiza e celebra as núpcias entre Deus e a humanidade, o verdadeiro símbolo das núpcias, o garante das núpcias entre Deus e os homens em Cristo.

Nesta perspectiva adquirem nova ressonância alguns lugares clássicos da tradição cristã: «O Verbo assumiu a carne para que possamos receber o Espírito Santo» (Santo Atanásio); «Onde está o Espírito aí está a Igreja» (Inácio de Antioquia). O Espírito age no tempo histórico, no cosmos e no homem para que estejam preparados para o banquete nupcial com Cristo, se “ornamentem” para tal acontecimento e dele participem plenamente. O Espírito que pairava sobre as águas no princípio da vida cósmica reaparece na Virgem Maria no início do novo cosmos-Cristo: o Espírito como sombra-presença divina veio sobre Maria, para que concebesse o próprio filho de Deus (Lc 1,35). O mesmo Espírito, sob a forma de pomba, desce sobre Cristo quando emerge das águas no Jordão: confirma a sua missão, mas também, como em Noé, indica nele a nova criação em quem resplandece a salvação depois do dilúvio do mal. O Espírito aparece sob a forma velada do vinho da embriaguez durante a festa das bodas de Caná e na forma do esplendor de Cristo transfigurado. No Espírito, que o tinha conduzido ao deserto para ser tentado (Mt4,1; Mc 1,12; Lc 4,1), Cristo oferece-se ao Pai sobre a Cruz. Oferecendo-se ao Pai, Cristo entrega o seu Espírito a todos os homens: «E, inclinando a cabeça, entregou o Espírito» (Jo 19,30). O mesmo Espírito acompanha a ressurreição de Cristo (cf. Rom 1,4), por isso o ressuscitado pode recriar o universo e a humanidade insuflando, como Deus ao primeiro homem, o Espírito sobre os seus apóstolos, início e primícia da nova humanidade: «Dizendo isso, soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo» (Jo 20,22). A partir deste momento o Espírito é o novo protagonista da história da Igreja e da humanidade, porque possui a potência do amor que a sustenta: «e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5,5).

O Espírito é o segredo e o eficaz dinamismo de toda a história e de toda a criação (cf. Rom 8,19-27), é o Amor (Guilherme de Saint-Thierry) que acompanha a Igreja-humanidade até às núpcias eternas com o Senhor ressuscitado na casa do Pai: «O Espírito e a Esposa dizem: “vem!” Que o sedento venha, e quem o deseja receba gratuitamente água da vida. Aquele que atesta estas coisas diz: “sim, venho muito em breve!” Amém, vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,17.20).

Nesta perspectiva o pecado mais grave do homem-povo é o esquecimento de Deus. O homem já não se deixa guiar e habitar pelo Espírito que é a memória de Deus, do seu amor. O coração do homem “embebeu-se” de gordura: «Eles envolvem seu coração com gordura, sua boca fala com arrogância» (Sl 17,10). Mas ser-nos-á enviado o Espírito, em vez do coração de pedra ser-nos-á dado um coração de carne, que saiba reconhecer e recordar, para que guardeis as minhas normas e as pratiqueis: «Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um Espírito novo, tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne» (Ez 36,26). O Espírito Santo é a conservação e expressão viva e vivificante daquele que é o Vivente, daquele que entrou na vida para não mais morrer. A viva memória do Espírito mantém vivo o Vivente comunicando-o inexaurivelmente. E o Vivente chega até nós e a nós se comunica através da memória actualizante do Espírito. Assim, a memória vivente do Espírito que o “conserva” e o “exprime” conduz o homem que habita esta terra até Cristo glorioso.


Fontes:

Cabeçalho da Mensagem: Site Oficial do Vaticano

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